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Saturday, January 13, 2007

Dezanove versos

O Finúrias criou um desafio com dezanove palavras... e esta é a minha leitura...


FORMAS com as tuas mãos uma escada com

DEGRAUS que levam o pensamento ao rio onde a

ÁGUA em que se lava o teu reflexo é o

ESPELHO de um rosto em que brilha o desejo de

SEXO de anjo que ilude o fim desafiando a

MORTE e o poder e a vida à flor da

PELE que encobre o sentido da voz chegada em

ECO mudo de vibrações carregando a saudade em

RETALHOS dominados por intenções equívocas de

AUDÁCIA como aquelas que deixaste veementes na

TELA quando com os teus pincéis alegres substituías o

NEGRUME translúcido do medo por cenas vivas de

CAFÉ concerto com dançarinas inebriadas de

GESTOS sob a frieza cortante do vento

NORTE e eu sentado à espera que a

VOZ te não doa e a ligeira doçura da

VIDA se erga violenta e decidida contra a

PEDRA gasta de uma muralha apoiada nos

SENTIDOS proibidos do tempo em que

FORMAS com as tuas mãos uma escada com
...

ikivuku

Thursday, January 11, 2007

E o meu futuro foi aquilo que se viu

O amigo Japinho fez-me interromper a hibernação para me lembrar do que é que queria ser quando fosse grande quando era pequeno. A seguinte é uma das versões.

Acabamos por ser sempre o que queríamos ser em crianças mas não tínhamos nem dados nem discernimento para descrever. Isto porque o querer é uma força, e no caminho que os dias de hoje nos reservam apenas impera a eficiência da vontade que cada um tem. Admito portanto que na origem, nos primeiros anos, no tempo em que ainda pensava sem pensar que pensava, a minha vontade incógnita era, já então, ser um equívoco. Mas não era possível, pela força das circunstâncias, assumir uma vontade incompreensível e irrealizável dentro dos padrões que são geralmente atribuídos às crianças. Dizia, por isso, que quando fosse grande, quando tivesse assumido essa idade mítica de já saber o que queria, haveria de ser o inventor da harmonia, da equivalência e do movimento perpétuo. Parecia simples e evidente, como continuam a parecer simples e evidentes os meios para criar e manter uma proximidade formal entre a realidade e a ficção.
Os desejos manifestados na infância são voláteis como os dias e os brinquedos. Nos livros do tio Patinhas, o professor Pardal tinha no laboratório um cartaz a anunciar os seus serviços que dizia: inventa-se qualquer coisa. Devo ter nascido aí no meio do paradoxo dessa frase, e nunca mais recuperei a lucidez.
Descobri já há bastante tempo que o que faz a particularidade de cada indivíduo são as suas doenças, as suas inaptidões para a norma: fôssemos todos sãos e integrados e seríamos espécie extinta de tédio. Olhar para as coisas é a melhor maneira de não as ver e cada verdade pode estar mesmo ao lado do óbvio embora o mais certo seja estar em lugar nenhum. Vale então a infância como o lugar onde ainda havia uma hipótese para a verdade. As frases eram curtas e precisas e cada palavra dizia apenas uma coisa. Brincámos com isso com toda a seriedade até que um dia fomos colocados no mercado...

Passo o trabalhinho a três amigos que andam também com um problema de expressão: Torcato, Lino e Jakim.

Ikivuku